Abraão: exemplo de fé

04/08/2019 17:06

Na semana que terminou, parte do clero de Juiz de Fora fez um retiro espiritual de grande profundidade. Por ser muito numeroso, os dias de recolhimento devem ser feitos em duas etapas: a primeira delas foi em fevereiro, com a metade dos sacerdotes; e a segunda metade fez agora, de 22 a 26 de julho. O pregador em ambas as oportunidades foi Dom Henrique Soares, bispo de Palmares (PE). O tema que ele escolheu a todos encantou: o caminho de Abraão, a sua fé; a confiança de Abraão em Deus, a confiança de Deus em Abraão.

O esposo de Sara é chamado “o pai da fé”: foi o primeiro que acreditou num Deus uno. No meio de tantos povos politeístas, Abraão descobriu – ou melhor, recebeu a revelação do alto – que há um só Deus verdadeiro, que não há outro. A sua fé se espalhou, se firmou e continua até hoje naqueles que o seguem, naqueles que são cristãos. Na ordem natural, Cristo é filho de Abraão, sendo seu descendente e também de Davi. Quando Deus escolhe o local para enviar o Seu Filho, que deveria se encarnar para libertar o homem da força do pecado, Ele escolhe a família de Abraão, os seus descendentes; a família de Israel, o povo de Davi.

No entanto, a fé de Abraão foi provada por Deus. Primeiro, ele foi provado porque deveria ter uma grande descendência, mas esta nunca vinha; a sua mulher era estéril, eles eram velhos. Certo dia, Deus o chamou para fora da tenda, apresentou o céu estrelado e disse: “A sua descendência será mais numerosa do que as estrelas do céu” (cf. Gn 15,5). Essa descendência veio garantida quando, na velhice, Sara concebeu um filho, que recebeu o nome de Isaac.

Mas, em determinado momento, para surpresa de Abraão, Deus pede que sacrifique o seu filho. E ele não perde a fé. Certamente teve dúvidas, mas, para Abraão, Deus nunca falha, Deus nunca erra. A pessoa humana é que pode falhar e errar. E se o Pai nunca erra, aquilo que Ele estava pedindo não seria algo negativo, não seria a derrota da sua vida.

Sacrifícios, no antigo Testamento, representavam a morte de um animal – um cordeiro, por exemplo – e depois a queima disso, para que o fogo acabasse com o que ficara. E foi assim que Abraão preparou o sacrifício de Isaac, certamente com uma grande dor no coração. Mas, quando Deus viu que ele era capaz de crer desta forma, não permitiu que seu filho morresse. Deu-lhe, no momento, um carneiro para que pudesse ser sacrificado no lugar de Isaac.

Mais tarde, nós vamos ver a encarnação do Verbo e ver que o verdadeiro Isaac é Jesus. Ele é o Filho de Deus. Ele foi sacrificado sobre o madeiro e, aqui, Deus faz mais do que Abraão: oferece o Seu Filho por nós, que morre na cruz. Mas assim como Isaac foi preservado na sua vida, pela bondade de Deus, Cristo ressuscita ao terceiro dia. Neste caso, a vida que é preservada, na verdade, é também a nossa, porque Jesus morreu por nossa causa.

Tantos outros aspectos Dom Henrique nos lembrou neste retiro espiritual, que foi para muitos padres que ali estavam, segundo seus comentários, o melhor que já fizeram na sua vida. O retiro espiritual é um momento importante para as pessoas que creem e, sobretudo para o clero. Estar exclusivamente diante de Deus, por quatro ou cinco dias, apenas para rezar, para beber da Palavra de Deus, é importantíssimo, porque fortalece a fé, anima no trabalho e dá sentido à vida.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

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